Harold Bennally, um ultramaratonista Navajo e diretor de corrida da Moccasin Running, viu seu objetivo de completar o Cocodona 250 Mile em 2026 se concretizar após anos de planejamento e dedicação.
Ao conversarmos pouco tempo após sua impressionante conclusão, é compreensível que ele estivesse experimentando o “pós-Cocodona blues”. O desejo de realizar uma façanha como essa remonta à infância, quando, sentado, ouvia as histórias de seu avô sobre corridas de longa distância. Seu avô, um homem de medicina na tribo Navajo, utilizava a corrida como meio de locomoção para o trabalho, para visitar diferentes comunidades e para adquirir suprimentos para a família. A ideia de percorrer grandes distâncias a pé capturou a imaginação de Bennally desde cedo.
A Profunda Conexão de Harold Bennally com o Cocodona 250 Mile
A ligação de Bennally com o percurso do Cocodona 250 Mile, e com o próprio ato de viajar longas distâncias a pé, é única. O trajeto da corrida atravessa terras historicamente cuidadas pelo povo Navajo. Percorrer tal distância a pé evoca memórias do “Long Walk” (Longa Caminhada). Entre 1864 e 1866, o governo dos Estados Unidos forçou milhares de Navajos a deixarem suas casas no nordeste do Arizona e noroeste do Novo México, rumo a um campo de internamento em Bosque Redondo, no leste do Novo México. Eles caminharam aproximadamente 300 milhas, e muitos perderam suas vidas no percurso.
Em 1868, após a assinatura do Tratado U.S.-Navajo, o povo Navajo retornou à sua terra natal, agora reduzida a uma fração de seu tamanho original. “Eles fizeram essa viagem duas vezes”, relata Bennally. “E todas as vidas que eles perderam, os anciãos, as crianças, os bebês, você sabe, todas essas pessoas…” Ele reflete sobre o privilégio de poder correr o Cocodona por escolha. “Se eles conseguiram fazer essas coisas, e eu estou aqui hoje, eu posso fazer isso.”
Bennally obteve uma vaga no Cocodona através de um programa impulsionado pela Rising Hearts, uma organização liderada por indígenas, e pela marca Kahtoola. Juntas, elas ofereceram bolsas de estudo para atletas que, de outra forma, não poderiam participar de eventos devido a barreiras financeiras. Bennally, na verdade, foi convidado em 2021, ano inaugural da corrida, mas optou por não participar pois não se sentia pronto em termos de treinamento.
Nos anos seguintes, Bennally treinou para corridas de 100 milhas, auxiliou outros corredores nativos no Cocodona e completou o Sedona 125 Mile, que cobre as seções finais do percurso de 250 milhas do Cocodona. Quando se sentiu preparado para enfrentar a corrida completa de 250 milhas, ele se candidatou à bolsa e, em janeiro de 2026, garantiu sua vaga.
Origens da Corrida e Raízes Navajo
- Bennally só se aventurou no ultramaratonismo por volta de
- Ele conta que correu uma maratona como parte de seu treinamento para um ultra, após ser convencido por um amigo de infância a participar do Elephant Mountain 50k em Phoenix, Arizona, em
- O calor foi um choque para Bennally, que vivia e treinava em Page, Arizona. Ele conta que se desidratou mais rápido do que esperava, tornando os últimos 10 quilômetros uma batalha.
No entanto, ele completou a corrida e ficou ansioso por mais. Bennally sempre conheceu o Western States 100 e o Hardrock 100 e começou a participar de corridas qualificatórias para descobrir até onde poderia chegar.
Após o falecimento de seu pai em 2015, sua relação com o treinamento e as corridas mudou. “Eu meio que perdi a motivação para realmente competir”, diz Bennally. Ele corria para terminar, para simplesmente aproveitar, e concentrou suas energias na organização de corridas. O nascimento da Moccasin Running foi inspirado em seu pai, e ele explicará mais sobre isso adiante, mas também foi uma oportunidade de se reconectar com a cultura em que cresceu.
Bennally cresceu em Page após sua família se mudar para lá a trabalho de seu pai. No entanto, seus anos mais jovens foram passados com seu avô paterno em um hogan, uma casa tradicional Navajo. “Naquela época, não havia água encanada, nem eletricidade”, recorda Bennally. “Então, fazíamos tudo com querosene e costumávamos carregar água para nossa casa em barris de 50 galões, e essa era a nossa água para uma ou duas semanas.” Havia também um rancho com gado, cavalos, ovelhas e cabras, e Bennally aprendeu a ajudar a cuidar deles. Ele frequentou a escola primária em Page, mas passava todos os verões de volta ao rancho com seus primos, cuidando das ovelhas ou aprendendo a dirigir um carro com câmbio manual. “Foi lá que aprendi a dirigir”, ri Bennally. Ele tinha por volta de sete ou nove anos.
A relação de Bennally com seu avô foi formativa. Ele viajava com seu pai para participar de cerimônias que seu avô realizava, auxiliando famílias em toda a Nação Navajo. Eles foram a Utah, Colorado, Novo México e até mesmo Washington, e Bennally passou a entender muitos dos ensinamentos Navajo através das cerimônias e diretamente pela língua Navajo.
Ao perguntar o que acontece durante as cerimônias, Bennally explica: “Depende do motivo pelo qual o paciente está ali, então não é tudo igual. Há diferentes situações que as pessoas enfrentam, seja um falecimento, um casamento… ou talvez um bebê acabou de nascer, ou uma mulher está entrando na sua fase adulta, tendo seu primeiro período, ou quando um homem está pronto para atingir a maioridade.”
Bennally conta que a corrida é uma parte importante da cultura Navajo. Ela faz parte das orações matinais, que envolvem uma corrida para o leste, em direção ao sol nascente, antes do amanhecer. Bennally diz que, como ele entende, você corre para saudar o sol, e então, quando o sol nasce, você para e faz sua oração com milho branco ou pólen de milho, vira-se e corre de volta para casa sob a luz do dia. Bennally buscava um significado mais profundo no ritual. Para ele, correr no escuro e ser saudado pela luz é uma metáfora da vida.
A Relevância do Espírito de Comunidade
O conceito de comunidade é central na vida e nas corridas de Harold Bennally. A Moccasin Running, que ele fundou, visa não apenas promover a corrida, mas também fortalecer laços dentro e fora da comunidade Navajo. Ele acredita que a corrida, assim como as histórias de seu avô, pode ser uma força unificadora e curativa.
Para Bennally, completar o Cocodona 250 Mile não foi apenas uma conquista pessoal, mas uma oportunidade de honrar seus ancestrais e de inspirar outros. A corrida, com sua longa história de viagens e resistência entre o povo Navajo, se tornou um poderoso símbolo de resiliência e conexão cultural.
Ele vê a si mesmo como um elo entre o passado e o futuro, usando sua experiência no ultramaratonismo para compartilhar os valores e a sabedoria de sua cultura. O espírito de comunidade que ele carrega é uma inspiração para todos nós, mostrando que mesmo os desafios mais árduos podem ser superados com força interior e o apoio de uma comunidade unida.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é o Cocodona 250 Mile?
O Cocodona 250 Mile é uma corrida de ultramaratona de 250 milhas (aproximadamente 402 km) realizada anualmente, conhecida por seu percurso desafiador e sua importância cultural para os corredores indígenas.
Quem é Harold Bennally?
Harold Bennally é um ultramaratonista Navajo e diretor de corrida da Moccasin Running. Ele é conhecido por completar corridas de longa distância e por seu forte senso de comunidade e conexão com suas raízes culturais.
Qual a importância da cultura Navajo para Harold Bennally?
A cultura Navajo é fundamental para Bennally. Suas histórias de infância com o avô, um homem de medicina, e a história do “Long Walk” influenciam profundamente sua perspectiva sobre corrida, resiliência e comunidade.
O que é a Moccasin Running?
Moccasin Running é uma organização fundada por Harold Bennally com o objetivo de promover a corrida e fortalecer laços comunitários, inspirada em sua herança cultural.
Como Harold Bennally se preparou para o Cocodona 250 Mile?
Bennally treinou por anos, participando de corridas de 100 milhas, auxiliando outros corredores e completando o Sedona 125 Mile. Ele também recebeu uma bolsa de estudo para participar do evento.
Conclusão
A jornada de Harold Bennally no mundo do ultramaratonismo é um testemunho de perseverança, força cultural e o poder unificador do espírito de comunidade. Sua capacidade de conectar as antigas tradições Navajo com os desafios modernos das corridas de longa distância o torna uma figura inspiradora. Ao completar o Cocodona 250 Mile, Bennally não apenas superou um obstáculo físico, mas também honrou seus ancestrais e celebrou a resiliência e a riqueza de sua herança. O exemplo de Bennally reforça a ideia de que a corrida pode ser muito mais do que um esporte – pode ser um caminho para autoconhecimento, conexão cultural e fortalecimento comunitário.
Fonte: www.irunfar.com